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Aborto
Por estes tempos o aborto, ou a
interrupção voluntária da gravidez, é o tema para todos os profissionais
de opinião e para todas as conversas. Vou também eu, ainda que sem
grandes qualificações para isso, meter-me na confusão.
Uns dizem que a
lei sobre o aborto é tema político, outros que é tema económico, outros
que é tema religioso. Há quem afirme que devem ser somente as mulheres a
decidir.
Eu penso que
esta questão é uma questão de vida. E quando se trata da Vida todos
temos que opinar e sobretudo actuar. Não podemos ser simples
espectadores num tema tão importante como este. Há que pensar na vida
daquelas crianças que poderiam nascer e são condenadas à morte. Há que
pensar na vida daquelas mulheres que, porque o aborto é ilegal, se
confiam às mãos de carniceiros sem escrúpulos, que neste momento fazem
abortos sem condições mínimas.
O discurso sobre
o Aborto deveria ser oportunidade para um discurso mais amplo sobre a
vida e sobretudo sobre qualidade de vida. Mas sobre a vida e a qualidade
de vida de todos, não só de um grupo de privilegiados. O nosso bem-estar
não se pode defender com todos os meios. Os fins não justiçam os meios,
muito menos nestes casos de comodismo, egoísmo e bem-estar absoluto. Nos
nossos dias as palavras sacrifício e renúncia, são aceitáveis somente se
estão estritamente ligadas á beleza. Para ser bonitos podem-se fazer
todos os sacrifícios possíveis, para outras coisas não. Nem sempre a
beleza é qualidade de vida, já o vimos no noticiário.
O tema de fundo
é sempre o mesmo, quem tem direitos sobre a vida de quem. Tem a mãe
direito de vida e de morte sobre o filho? Tem a sociedade direito de
vida e de morte sobre quem infringe as regras? É minha opinião muito
pessoal que ninguém tem direitos sobre a vida, mas todos temos deveres
para com ela. Seja ecológicos, éticos, ou morais. A vida deve ser
defendida e incentivada. Não com 250€ por nascimento, mas com a formação
de uma consciência social, que é bem diferente do pensar dominante,
fruto das paródias das telenovelas. Certamente uma juventude formada por
“Floribelas” e “Morangos com Açúcar” e outros semelhantes, não promete
nada de confortante para o futuro. Uma juventude que não tem opinião
própria e renunciou a pensar, dificilmente aportará algo de inovador.
Outra grande
questão, desta discussão sobre a interrupção “voluntária” da gravidez, é
o saber quando o feto é pessoa. Porque queremos dar a impressão de que
na nossa democracia toda a pessoa tem direitos e estes são respeitados.
Infelizmente começo a não acreditar muito nesta quimera. Quantas vezes o
Aborto terá mesmo sido voluntário por parte da menina. Quantas vezes
terá mesmo ela tido oportunidade de ponderar todos os aspectos? E quando
for legal a consciência será maior? Ou será mais: “tanto é legal, não há
problema”; “anda lá não te vai acontecer nada, o governo até paga a
despesa”.
Temos de começar
a ter consciência que nas nossas democracias capitalistas as pessoas não
têm todas os mesmos direitos. Sempre houve e sempre haverá os
indesejados. Uns pela escolha de vida que fizeram, outros pelo simples
facto de existir. Pelo simples facto de que a sua existência por algum
motivo se tornou incomoda para nós. Invadiu o espaço que pensamos fosse
nosso.
Outra
dificuldade que este referendo me põe pessoalmente é que se fala de
legalização da interrupção voluntária da gravidez, mas não se
especificam os moldes dessas legalidade. O que significa exactamente
legalizar neste caso concreto. Ainda não tenho uma ideia clara. Talvez o
resto dos portugueses, a tenha.
Como Padre não
posso ter outra posição do que aquela que defende a vida. Penso que é
nosso dever defender sempre e em qualquer circunstância a vida. A
maravilha, direi mesmo o milagre da vida. Os opositores do costume da
Igreja vão recordar o passado da Igreja (Inquisição e outros
semelhantes). A Igreja nem sempre foi coerente. Possivelmente nem mesmo
hoje o é. Mas penso não é a única. Infelizmente a história passada deixa
marcas e cicatrizes em todos nós. Todos nós temos coisas na nossa vida
das quais não nos orgulhamos, mas isso não pode ser impedimento a
desejar fazer melhor, a ser melhor.
Penso
sinceramente que neste discurso é necessário ter em consideração a
dignidade e a qualidade da vida. Da criança porque merece ter acesso à
vida e é motivo de esperança para este mundo fechado no egoísmo. Da mãe
porque não pode ser reduzida a objecto de prazer que se usa e manipula.
São muitas as mulheres que depois de fazer um aborto carregam a culpa
por muitos anos, uma mágoa que dificilmente se pode curar.
Se fazemos da
vida uma questão de luta politica então a política aparece no seu pior.
Muitas vezes os ideais políticos se tornaram em fomento de massacres.
Certas ideologias políticas tendem constantemente em desbocar em
extermínio de vidas humanas.
Do meu limitado
ponto de vista o ideal seria proteger a vida dos fetos, dando-lhes a
possibilidade da vida. E proteger a vida das mulheres, ainda que contra
a lei tenham decidido matar outro ser humano, que isso não seja motivo
para uma condena á morte na mão de carniceiros sem escrúpulos, que
pensam somente em arredondar o salário para depois gastar nalgum
capricho idiota. |